OS SINOS DOBRAM POR NÓS

Deveríamos estar a fazer um luto silencioso por um futuro que teria sido possível, se não tivesse sido assassinado pela mesquinha vontade de domínio – económico, político, militar, simbólico – das elites, sobretudo as dos países vinculados a este modelo de capitalismo neoliberal que só ficará satisfeito quando os seus dentes insaciáveis se quebrarem contra o muro do Nada. Em vez disso, temos de suportar as mentira e ilusões daqueles que, em postos de comando, e perante a catástrofe abissal já visível a olho nu, se limitam a gritar, com voz determinada e confiante: “Para a frente, a toda a velocidade!”.

O fim pacífico da guerra-fria criou todas as condições para reanimar, com uma nova ambição e perante novos desafios, os projetos de cooperação entre Estados, incluindo a criação de novas federações, sendo a União Europeia a candidata perfeita para essa via, como entusiasticamente o propunha e esperava o académico norte-americano Charles Kupchan (1).Também num texto, escrito na viragem do século, desenvolvi a hipótese de acrescentarmos à díade histórica do Estado soberano (a partir do século XVI) e Estado nacional (a partir do final do século XVIII), a possibilidade de um terceiro modelo, que designei como “Estado flexível” (2). Seria um Estado, de geometria variável nos seus alinhamentos, nas diferentes redes de cooperação global, consagradas em convenções internacionais, apto para se modernizar social, política e tecnologicamente através de reformas baseadas em conhecimento e participação cívica intensivos. Seria, sobretudo, um modelo de Estado cujas lideranças seriam sensíveis não apenas às potencialidades, mas sobretudo atentas aos imensos riscos contidos nos horizontes de futuro. As tarefas que exigiam uma resposta positiva para merecermos uma habitação comum da Terra, capaz de defender o futuro poderiam ser resumidas nos seguintes tópicos:

  • Repensar da democracia e das suas condições de possibilidade, combatendo a desigualdade crescente, e a captura da representação pelos iliberais titãs económicos e financeiros gerados pela desregulação neoliberal.
  • A refundação da ética a partir da superação de um paradigma de antropocentrismo solipsista, caucasiano, ocidental e sexista.
  • Retomar a tradição federalista na procura de um modelo para a recomposição de um sistema internacional, permitindo preservar e consolidar a paz, impulsionando um novo realismo em que as divergências de valores, bem apontadas por Samuel Huntington, não impedissem uma cooperação compulsória internacional perante ameaças existenciais comuns.
  • Aprofundar o significado profundo da necessidade de disciplinar o mercado global, de modo a travar os múltiplos riscos (ambientais e de segurança) que a desmesura da economia extrativista neoliberal acarretaria.
  • Integrar nas teorias de segurança nacional e internacional o maior e mais universal de todos os riscos, apenas comparável ao risco da autodestruição da humanidade num conflito termonuclear; a galopante crise global do ambiente e clima que ameaça tornar inabitável grandes extensões do Planeta, ainda no decurso deste século.

Para quem escreve ao mesmo tempo em que se mata e morre nos campos de batalha, que, por agora, se limitam à Ucrânia, é impossível não sentir uma profunda tristeza pelo facto de a nova globalização, permitida pelo fim da guerra-fria, não só não ter resolvido nenhuma destas tarefas, como ter mesmo ressuscitado a forte possibilidade de uma guerra nuclear entre o Ocidente – liderado por um patético impulso unipolar norte-americano cada vez mais desprovido de alma e desligado da adesão mais elementar à realidade – e a Rússia, agora, ou a China, amanhã.

Nunca em nenhum momento histórico as perspetivas foram, globalmente, tão sombrias. Oscilamos entre a morte súbita, num Armageddon atómico, ou a lenta agonia num planeta ecologicamente destruído pela ganância e avidez irrestritas. Pela primeira vez, desde as esperanças suscitadas pela Modernidade há meio milénio atrás, o futuro aparece como um U invertido, condenando as gerações mais novas a (sobre) viveram nos escombros deixados por uma herança de egoísmo, voracidade, e miséria moral e material. Contra todas as tendências de fundo, teremos de encontrar dentro de cada um de nós as forças de inteligência e carácter para resistir e contrariar as forças poderosas que atiram a presente anarquia internacional para um abismo sem paralelo nos nossos registos históricos. Só a persistência, através das palavras e dos atos, na confiança de que a essência do comportamento humano, dotada da capacidade de ponderação e escolha, nos permitirá diferenciarmo-nos do comportamento de todas as outras criaturas, dos mais elementares vírus aos mamíferos superiores, cuja ação obedece inteiramente ao mais inflexível determinismo. Se a humanidade não conseguir erguer-se na tarefa existencial de habitar pacificamente a Terra, com sabedoria e respeito mútuo, aliado ao cuidado pela miraculosa rede natural que alimenta a Vida, que a todos nos suporta, a primeira coisa a desaparecer, antes mesmo da civilização, será a crença na dignidade humana.

Referências

  1. KUPCHAN, Charles A., The End of the American Era. U.S. Foreign Policy and the Geopolitics of the Twenty-First Century, New York, Vintage Books, 2003, pp. 152-157.
  2. SOROMENHO-MARQUES, Viriato, Reinventar la ciudadanía en la era de la globalización. Esbozo de un programa de investigación”, Revista Internacional de Filosofía Política, Madrid, n.º 17, julio 2001, pp.96-99.
  3. Huntington, Samuel P., The Clash of Civilizations. Remaking of World Order, New York, Simon & Schuster, 1996.

Viriato Soromenho-Marques

Publicado no Jornal de Letras, edição de 7 de setembro de 2022, página 27.

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