Heróis: “Gorbachev e Mandela por terem feito o que deveria ser e não o que seria previsível”

Professor universitário destaca a coragem como a sua virtude preferida. Quanto à felicidade, esta é sempre imperfeita e justifica: “Schopenhauer tinha razão quando nos alertava para que a felicidade chega depois das coisas negativas que, temporariamente, atenua.”

  1. A sua virtude preferida? Coragem. Como nos ensina Aristóteles, sem ela as outras não lançam raízes.
  2. A qualidade que mais aprecia num homem? A aliança entre inteligência e humildade.
  3. A qualidade que mais aprecia numa mulher? A mesma aliança, e a superior capacidade de perceber que o diabo se esconde nos detalhes.
  4. O que aprecia mais nos seus amigos? A sua paciência para comigo. A capacidade de retomar o fio da amizade, como se o tempo fosse sempre o “agora”.
  5. O seu principal defeito? Com horror ao ressentimento, tendo a esquecer demasiado as ofensas e danos. O que, por vezes, não é prudente.
  6. A sua ocupação preferida? Não sentir passar o tempo quando se aprende e discute com gente que morreu há séculos. Gente com muito talento e pouca pegada ecológica.
  7. Qual é a sua ideia de «felicidade perfeita»? A felicidade é sempre imperfeita. Schopenhauer tinha razão quando nos alertava para que a felicidade chega depois das coisas negativas que, temporariamente, atenua. Por isso, a ética utilitarista, hoje dominante, está condenada ao fracasso.
  8. Um desgosto? Ter perdido quem nos acolheu no mundo, ou a perspectiva assustadora de ficarmos por aqui, mesmo depois daqueles a quem abrimos as portas da vida.
  9. O que é que gostaria de ser? Ser eu mesmo, o melhor possível. Como diz o ditado: “todos os outros lugares já estão ocupados”.
  10. Em que país gostaria de viver? Só sairia de Portugal empurrado pelas baionetas ou pela miséria.
  11. A cor preferida? Hesito entre o Azul e o Verde: Mar e Floresta.
  12. A flor de que gosta? Aquelas que crescem livremente nos campos.
  13. O pássaro que prefere? Todos, mas estremece-me o coração com o regresso primaveril das andorinhas ou o bater do bico das cegonhas na torre da Igreja da minha infância.
  14. O autor preferido em prosa? Eça de Queiroz e o seu irmão brasileiro, Machado de Assis.
  15. Poetas preferidos? O saudoso Ruy Belo, Antero de Quental (tenho os sonetos na banca de cabeceira), a lírica camoniana.
  16. O seu herói da ficção? O Candide, de Voltaire, ou o Winston, de George Orwell. São da família do D. Quijote, de Cervantes.
  17. Heroínas favoritas na ficção? A Antígona. Tanto a de Sófocles, como a de Jean Anouilh (1944).
  18. Os heróis da vida real? Gorbachev e Mandela, por terem feito o que deveria ser, e não o que seria previsível. A multidão de heróis anónimos que fazem por manter o mundo como um sítio decente, apesar da deriva dos poderosos.
  19. As heroínas históricas? Hannah Arendt, que estamos agora a perceber. Rachel Carson, fez uma revolução na compreensão da crise ambiental com o livro, A Primavera Silenciosa (1962). Elinor Ostrom, a Nobel da Economia dos bens comuns (2009). Em Portugal, Maria de Lourdes Pintasilgo, por tudo o que foi e fez.
  20. Os pintores preferidos? Turner, Hooper, mas também os contemporâneos portugueses que contemplo em casa, o Eduardo Carqueijeiro, a Maia Horta.
  21. Compositores preferidos? Bach, Beethoven, Mahler, Erik Satie,
  22. Os seus nomes preferidos? Maria, Margarida, Rodrigo.
  23. O que detesta acima de tudo? Os optimistas profissionais. São os mercenários do século XXI.
  24. A personagem histórica que mais despreza? Estaline. Nem os seus camaradas escaparam à sua sede de sangue.
  25. O feito militar que mais admira? Voltaire dizia que a história moderna começava com Vasco da Gama. Mas sem a invenção portuguesa da batalha naval moderna, com o uso autónomo da artilharia, o regresso dos europeus à Índia, 1 800 anos depois de Alexandre, não teria acontecido.
  26. O dom da natureza que gostaria de ter? Melhor visão.
  27. Como gostaria de morrer? Causando o mínimo transtorno aos que se sentiriam no dever de me amparar, caso a morte fosse um processo lento.
  28. Estado de espírito atual? Realista não resignado.
  29. Os erros que lhe inspiram maior indulgência? Aqueles que nascem da generosidade e da sede de saber.
  30. A sua divisa? Entre nascer e morrer há uma vida para viver.

Viriato Soromenho-Marques

Publicado no Diário de Notícias de 16 de Julho de 2021

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