O inimigo dentro de portas

A EU, em conivência com Zelenski, faz campanha não só para continuar a guerra, mas para a intensificar e alargar com a entrada direta dos países europeus, e, pelo menos parcialmente, da NATO.

A guerra é um momento de verdade para os Estados, que são os seus protagonistas essenciais, mas também para os indivíduos, que, na sua origem e decurso, são os seus potenciais algozes e vítimas. A minha tese principal consiste em afirmar que a União Europeia se transformou no principal inimigo dos Estados europeus e sobretudo da vida e da fazenda dos cidadãos europeus. E é a guerra da Ucrânia a grande prova de fogo que serve de demonstração a esta tese.

É verdade que até Josep Borrell, Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança (2019-2024), afirmou em final de outubro de 2024, que com a cumplicidade ativa da UE no genocídio praticado pelo Estado de Israel contra o povo palestiniano em Gaza, o projeto iniciado por Jean Monnet “perdeu a sua alma”. Contudo, essa queda da UE no espesso lodo da moral pública, começou muito antes, tendo-se revelado com a guerra da Ucrânia e as suas raízes. Compreender a historicidade e multidimensionalidade desse processo é indispensável para perceber os motivos que me levam a sustentar que atualmente a principal ameaça existencial aos povos europeus não reside na Rússia nem nos EUA, mas sim no colapso cognitivo e na furiosa russofobia dos órgãos supremos da UE. Vejamos os principais argumentos demonstrativos.

Primeiro. A UE, com uma responsabilidade especial para a Alemanha, confundiu-se crescentemente com a NATO, sendo cúmplice ativa da tentativa dos EUA de, depois da dissolução da URSS, manter a Rússia à margem de um novo e indivisível sistema de segurança europeia. De 1990, ano da falsa promessa de não alargamento da NATO para Leste, até 24-02-2022, data da invasão russa da Ucrânia, temos três décadas de sucessivas tentativas de marginalizar as “garantias de segurança” da Rússia, explorando todas as vias para fomentar a fragmentação e a dissensão dentro e fora das fronteiras desse país. Isso continua bem vivo, já depois da 2022, na manutenção do objetivo declarado da UE de infligir uma “derrota estratégica” a Moscovo, o que seria igual à fragmentação da Rússia em cinco ou seis Estados mais pequenos, como lembra, repetidamente, a atual chefe da diplomacia de Bruxelas, Kaja Kallas. 

Segundo. Usando o direito internacional como desculpa para a autoflagelação estratégica, a UE, e em particular a Alemanha, enveredaram (depois de 2014 e 2022) por uma política de sanções contra a Rússia que se voltou contra os interesses da economia e da qualidade de vida dos Europeus, suportando o objetivo disruptivo dos EUA de destruir a cooperação mutuamente vantajosa entre a Rússia e a UE, contrariando todos os esforços diplomáticos para encontrar uma solução para o rápido fecho do conflito. O gigantesco financiamento do governo de Kiev, conhecido pelo tradicional e elevado nível de corrupção, foi feito sem escrutínio (ao contrário do que ocorreu no período da crise do euro com a vigilância da troika à política orçamental de Portugal, da Grécia e da Irlanda).

Como recompensa pelos seus bons serviços, talvez Paulo Rangel termine a sua carreira política como governador [de uns Açores tutelados pelos EUA].

Terceiro.  A UE mergulhou os Europeus numa cortina de propaganda, com um controlo férreo das narrativas sobre a guerra. A imposição de uma mitologia simplificadora foi feita com a cumplicidade da maioria dos media convencionais e o entusiasmo colaborante de muitos académicos, manifestando também o desastroso crepúsculo da “imparcialidade homérica” e da lisura intelectual nas instituições de ensino superior europeias, que as deveriam defender incondicionalmente. 

Quarto. Com uma economia destroçada pela dívida pública crescente, pela estagnação económica, e pelo “imposto Trump” de 5% do PIB europeu para garantir a compra de armas aos EUA, a UE entrou num processo de violação das regras do jogo dos mercados financeiros. A tentativa gorada de roubar os ativos russos, sobretudo em títulos de dívida dos Estados europeus, transformando-os em dinheiro oferecido a Kiev para o esforço de guerra, teve como resultado a consolidação de um sentimento de desconfiança dos mercados financeiros relativamente à UE. Não só aumenta a taxa de esforço da dívida dos Estados europeus como se expande o abandono do euro como moeda de reserva internacional.

Quinto.  A Comissão Europeia tem governado por decreto. O Tratado da União Europeia e o Tratado de Funcionamento da União Europeia têm sido violentados com brutalidade, através de interpretações totalmente contrárias, tanto à letra como ao espírito, desses documentos para-constitucionais. Mais recentemente, o Conselho da União Europeia na área da política externa e de segurança tem violado grosseiramente os direitos humanos ao alargar a cidadãos europeus brutais sanções que os privam de acesso aos seus bens materiais e coartam o seu direito de circulação (Council Decision (CFSP) 2025/2572 of 15 December 2025. https://eur-lex.europa.eu/eli/dec/2025/2572/oj). Estamos a falar da transformação da liberdade de expressão em delito de opinião, abolindo a separação de poderes, e o direito à defesa num julgamento justo. A UE faz-nos regressar aos tempos anteriores à Magna Carta!

Sexto. O mais grave, contudo, é a campanha organizada pela UE, em conivência com Zelenski, não só para continuar a guerra, mas para a intensificar e alargar com a entrada direta dos países europeus, e, pelo menos parcialmente, da NATO. Responsáveis políticos e militares têm indicado o período entre 2026 e 2030 como a janela provável para tal ocorrência. Como afirmou J. F. Kennedy, num discurso em Washington, em 10 de junho de 1963: “Acima de tudo, enquanto defendem os seus próprios interesses vitais, as potências nucleares devem evitar os confrontos que levam o adversário a optar entre uma retirada humilhante ou uma guerra nuclear. Adotar esse tipo de atitude na era nuclear seria apenas uma prova da falência da nossa política – ou de um desejo coletivo de morte para o mundo.” Esquecer a mais importante lição da Guerra Fria, que é o princípio da Destruição Mútua Assegurada (MAD). Sustentar hoje que é possível travar uma guerra vitoriosa contra a maior potência nuclear do planeta é uma prova abominável do “desejo coletivo de morte para o mundo”, reinante em Bruxelas, que só poderá conduzir à destruição definitiva da Europa, incluindo o seu património e memória, varridos no inferno nuclear.

O sonho de paz com justiça da União Europeia há muito que foi raptado pela avidez e os caprichos de uma elite neoliberal para quem a democracia é um mero instrumento, só valioso quando o resultado é o mais conveniente (basta ver a doutrina de choque praticada durante a crise do euro). Mas desta vez é diferente. Os inimigos da vida e dos bens dos cidadãos europeus, com a cumplicidade da maioria dos governos nacionais, estão sentados na Comissão Europeia, no Conselho Europeu, no Conselho da União Europeia, no Parlamento Europeu. O seu niilismo ético só é ultrapassado pela sua profunda ignorância dos resultados de uma guerra levada ao extremo entre potências nucleares. Ursula von der Leyen, António Costa e Kaja Kallas são hoje o rosto de uma incompetente desmesura europeia que nos poderá condenar a todos à aniquilação.


PS. Escassas horas depois de ter escrito o texto acima, os EUA atacaram a Venezuela e raptaram o presidente Maduro e a sua mulher, levando-os para Nova Iorque. Maduro será julgado sob a acusação de liderar o narcotráfico para os EUA. Há ainda muitas dúvidas por esclarecer. A ausência de resistência dos sistemas aéreos e das tropas terrestres venezuelanas ao raide das forças especiais norte-americanas indicia a possibilidade de um acordo prévio, talvez através do suborno de uma parte da hierarquia militar. Nas questões essenciais, contudo, não restam dúvidas. Enquanto os soldados norte-americanos destruíam qualquer resistência (fala-se de 40 mortos, pelo menos), o presidente Trump indicava o petróleo como o motivo principal do ataque. A explicação mereceria um texto mais longo, mas as questões-chave são as seguintes: a) os EUA carecem de crude pesado (heavy crude oil) para as suas principais refinarias. Elas estão instaladas perto do Canadá (nos estados do Illinois e do Montana) e da Venezuela (nos estados da Luisiana e do Texas). Os outros grandes exportadores, Arábia Saudita e Rússia, estão envolvidos na construção dos BRICS e num novo sistema monetário internacional que rompa com os petrodólares (a obrigação de todas as compras de combustíveis fósseis serem efetuadas na moeda dos EUA). Este ataque dos EUA à Venezuela é um regresso ao imperialismo boçal, baseado na força militar e não no softpower do poderio económico e cultural, que passou a ser dominante após 1945. Trump fala como se a submissão da Venezuela estivesse completa, mas esse país não é o Panamá. Muito sangue irá ainda escorrer. O que é certo é a total inaceitabilidade desta ação bélica dos EUA à luz do direito internacional e do mais elementar respeito pela soberania dos Estados sobre os seus recursos naturais. Contudo, com a exceção da condenação espanhola, tanto a Comissão Europeia como os principais países europeus recusaram-se a condenar Trump, mostrando uma vergonhosa cumplicidade com ele. Porém, pelo que conheço, o cúmulo da desfaçatez pertence ao ministro português dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, que considerou “benigna” a intenção de Trump e chegou mesmo a aconselhar a Trump o nome de Edmundo González para futuro chefe de Estado em Caracas… É uma pena que Trump não o tenha escutado, pois estava ocupado a dizer que Corina Machado, a Nobel da Paz 2025, apesar de entusiasmada com a intervenção americana não tinha qualidades para esse cargo. Não tenho palavras para expressar a infelicidade que me assola por ver Portugal, além de encurralado numa UE enlouquecida, ser governado por quem prejudica os interesses nacionais e ofende o melhor da nossa herança histórica. Talvez o presidente Trump, depois de ter arrancado a Gronelândia à soberania dinamarquesa, também desembarque os seus marines em todas as ilhas da Região Autónoma dos Açores, declarando-as como um novo Porto Rico, um território tutelado por Washington. Nessa altura, como recompensa pelos seus bons serviços, talvez Paulo Rangel termine a sua carreira política como governador. Viver rodeado pelo Atlântico por todos os lados será o melhor habitat para um atlantista incondicional como o atual MNE.

Viriato Soromenho-Marques é professor catedrático da Universidade de Lisboa

in Jornal Maio. 7 de Janeiro, 2026

https://jornalmaio.org/o-inimigo-dentro-de-portas/

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